quarta-feira, 1 de abril de 2020

Yakuza 0 - O prólogo do Dragão de Dojima e do Cachorro-Louco de Shimano

Ei, pessoal. Tudo bem com vocês?

Faz um tempo, mas estou aqui de volta com mais uma publicação. Antes de começar, queria dizer que dia 17 de fevereiro desse ano, comemoramos 5 anos de Leigan \o/. Fico feliz de ainda escrever aqui, mesmo com uma frequência péssima. Será que corrijo esse ano? Quem sabe, sinto que sim! Vamos pro post...

Hoje venho falar de um jogos que faz parte de uma das séries de videogame mais queridas por mim: Yakuza 0. 

Felizmente, nos últimos anos, um crescimento inesperado e quase inexplicável da franquia ocorreu no ocidente, e podemos creditar isso a Yakuza 0!
Aliás, esssa review é livre de spoilers pesados, então sinta-se livre para ler se ainda não jogou!

Uma das artes oficiais e a utilizada na capa do jogo. O título em japonês "Ryuu Ga Gotoku Zero: Chikai no Basho" ~ lit. Tal como um Dragão - Local de Juramento.

A Franquia Yakuza

A franquia foi criada por Toshihiro Nagoshi e publicada pela Sega para o Playstation 2 em 2005 no Japão com o título de "Ryuu Ga Gotoku" (lit. "Como um Dragão") e no ano seguinte no ocidente, como "Yakuza" (a localização tentou pegar carona com a onda de jogos como GTA, fazendo alusão ao submundo de mafiosos e violência, e por mais que estes temas  estejam presentes na franquia, obscurecem a realidade da obra). Atualmente contando com 8 jogos principais (7 no ocidente, pois no momento dessa postagem, Ryuu Ga Gotoku 7/Yakuza: Like A Dragon saiu apenas no Japão) e alguns spin-offs, ela conta tragetória de Kiryu Kazuma de vida de Kiryu Kazuma e mostrando a sua relação com o Clã Tojo e o submundo do crime japonês, até o Yakuza 6 onde ele tem seu arco encerrado. A série tem como seus gêneros principais ação, aventura e uma gameplay beat'em up 3D com elementos de RPG, exceto pelo título mais recente no Japão: Yakuza 7, um RPG de turnos, cujo protagonista é Kasuga Ichiban. Vale citar também "Judgement", nova IP do mesmo estúdio que produz Yakuza e que se passa no mesmo universo dos jogos da franquia e com gameplay semelhante, apesar de trazer um contexto diferente.

Yakuza 0 foi lançado em 12 de março de 2015 no Japão para Playstation 3 e 4, e mais tarde no ocidente em 24 de Janeiro de 2017 para o Playstation 4, 1 de agosto de 2018 para PC e por fim, 26 de Fevereiro desse ano para o Xbox One, Yakuza 0 apresentou um novo rumo para a série, e sendo o início perfeito para quem não a jogou antes.

A Jogabilidade

Majima eleva coreografias de dança a outro patamar.

O mundo é semi-aberto, e a jogabilidade está pautada principalmente no combate e na exploração (a pé) do mapa nos intervalos entre capítulos, com diversos elementos interativos (pessoas, adversários, estabelecimentos, etc). Irei abordar mais densamente esses elementos no próximo tópico, pois antes quero falar sobre o combate.

Sem dúvidas, um dos elementos mais incríveis desse jogo!

Não muito diferente da lógica dos jogos anteriores, ele consiste em combos com os ataques normais e o botão finalizador, além de defesa, a esquiva e os taunts (provocações que não dão dano, mas enchem a barra de especial se usadas na hora certa). A questão é que aqui é tudo muito estiloso! Os movimentos, dos mais banais aos mais brutais, são visualmente incríveis, é um combate espetacular!
O foco é com as mãos nuas, até porquê Yakuza não é GTA, andar pelas ruas japonesas com uma arma de fogo em mãos é impensável, mas objetos do cenário (placas, lixeiras, e até bolas  de sinuca!). Até existem armas brancas e de fogo no jogo, mas o acesso a elas não é tão simples, possuem durabilidade e são desinteressantes, servindo mais para enfrentar múltiplos inimigos sem sofrer muito.

Yakuza 0 resgata e melhora o sistema de "battle styles" utilizado em Ryuu Ga Gotoku Ishin (spin-off da série para PS3 e PS4). Cada um dos personagens jogáveis possui 3 estilos de batalha (e 1 secreto, que irei abordar em outro tópico). Kazuma conta com os estilos Brawler, Rush e Beast. O primeiro é o estilo padrão e tem como foco o combate mano a mano, e consiste em socos e counters (contra-golpes), sendo um estilo bastante equilibrado e ideal para bosses, por exemplo, devido ao seu foco. Já o estilo Rush, trabalha com movimentos muito ágeis e esquivas, servindo para escapar mais facilmente de ataques poderosos e situações de cerco e se seus movimentos forem  bem executados, ele encherá rapidamente sua barra de heat (falo sobre abaixo). Por fim, o estilo Beast, com poderosos ataques capazes de atingir múltiplos oponentes simultaneamente, além de contar com poderosos agarrões e a habilidade de combar objetos do cenários com seus ataques, criando uma cena brutal. É o estilo mais forte dos três, apesar de possuir uma esquiva péssima e uma defesa complicada de se dominar, o que o torna nem sempre ideal contra inimigos mais fortes.

Majima conta com o Thug, Breaker e Slugger. O Thug é o estilo padrão e consiste em chutes direcionais e um combate mais balanceado, sendo bastante similiar ao Brawler do Kiryu. Breaker é literalmente o estilo de dança homônimo sendo utilizada para dar chutes, piruetas e deslizes. Ideal para enfrentar diversos oponentes - isso claro - se você  manter o ritmo. E sobrando assim, o Slugger, qual usa-se um bastão de baseball (uma das paixões desse personagem) para quebrar a cara de qualquer adversário e que tem pode ser utilizado para uma defesa mais consistente, o estilo mais forte e ideal para lutar contra bosses, mas deixando a desejar na esquiva, tal como seu paralelo, o Beast.

O jeito é sempre combinar bem os usos dos três estilos, que podem ser facilmente alternados utilizando-se as direcionais digitais do Joystick!

Feel the HEAT, kyoudai!

A cereja do bolo, são os "heat attacks", especiais geralmente ativados apertando o botão finalizador  de combos (o triângulo do DualShock, por exemplo) em certas condições e abrindo uma cena cinematográfica ultra-violenta e estilosa! São diversos tipo de heat attacks, feitos com  as mãos nuas ou com o auxílio de objetos do cenário e até mesmo o próprio cenário: como heat attacks em que você bate a cabeça de um oponente na parede. Essa mecânica é muito interessante, principalmente nas lutas contra bosses, que são sempre fantásticas e possuindo QTE (quick time event, um botão ou uma sequência de botões que deve ser apertada rapidamente para se realizar uma ação) bem situadas e heat attacks únicos!

A dinâmica de evolução do personagem controlável é bem simples e única: praticamente tudo aqui tem alguma ligação com dinheiro, e isso inclui a árvore de habilidades: para aprender novas skills, melhorar seu dano, vida e a barra de heath, você paga. O dinheiro no jogo tem diversas utilidades e a princípio cuidar dos seus gastos vai ser trabalhoso, porém eventualmente você pega o jeito e aprende a ficar bilhonário (em iens, claro) e acaba tendo grana pra tudo o que desejar! Para se ter noção, existe uma ação de jogar dinheiro no meio da rua para dispersar a atenção de oponentes (que num estilo bem RPGzão mesmo, ficam andando pelo mapa em busca de briga).

A Ambientação

Sotenbori

Fim da década de 80, em Kamurocho (inspirado no distrito real de Kabukicho, em Tóquio) e Sotenbori (inspirada  no distrito real  de Dotenbori, Osaka), Yakuza 0 trás uma bela imagem do que foi a época no Japão, com fidelidade estética incrível. Roupas, cortes de cabelos, construções e modas da época. Geralmente os jogos da série se passam no mesmo ano em que são lançados e tentam reproduzir de maneira fiel dentro dos limites gráficos a realidade atual da região. Esse título é o pioneiro em reproduzir uma época passada, mas fez bonito! A trilha sonora também ajuda muito na experiência. Quando estamos explorando o mapa, geralmente ele não possuía uma música de fundo tradicional, e sim uma combinação de sons ocorrendo no ambiente (vozes de pessoas na rua, lojas, etc). Ou seja, os sons de uma cidade, dando uma imersão incrível. Existem vários bares, restaurantes, arcades da SEGA... vários estabelecimentos incríveis (geralmente inspirados em lugares reais, que pagam para ser parte do cenário). A experiência de estar em Tóquio (e Osaka) é real! Claro que temos músicas mais "tradicionais", a diferença é que elas se apresentam durante combates e momentos mais tensos...e olha, são sensacionais e fazem a adrenalina do combate ficar ainda mais intensa, vai por mim.

Além do combate, Yakuza conta com diversos mini-games, como o popular Karaoke, presente em todos jogos desde os títulos para PS3, utilizando um sistema de rythim game. e  o Disco, realizado em clubes de dança como o dos anos 80, usando um sistema semelhante. Há também vários outros mini-games, Shogi (análogo ao xadrez no Japão), Mahjong, Sinuca, Dardos... e a lista é gigante! Muitos reproduzem bem as regras reais desses jogos, sendo simuladores perfeitos para eles. Dá para gastar horas e horas só nisso.

Um elemento muito importante do jogo, existente desde o Yakuza original para PS2, são as substories, sidequests especiais e não obrigatórias que apresentam histórias paralelas a trama do jogo, vezes a complementando ou apenas servindo como um ponto fora da curva. E do que se tratam? Basicamente, são histórias que ocorrem  no mundo do jogo, em momentos que estamos explorando livremente o mapa. Kiryu ou Majima podem simplesmente trombar com uma pessoa passando por problemas, e decidem ajudá-la, encontrar algo estranho e acabam investigando, sendo abordados por gangues de rua, bandas juvenis, estátuas vivas...e pequenas histórias saem daí. Podem lembrar bastante algo filler, mas vão por mim, são divertidas (mesmo que o 0 me pareça ser o título que substories mais fracas, apesar de ter uma das melhores tramas principais). Essas substories podem ajudar ao seu personagem ganhar habilidades e itens secretos, além de haver um sistema de amizade no Yakuza 0 com alguns personagens delas, que te ajudam a ter bônus maiores. E completar todas garante acesso a um desafio maior, o boss secreto (no caso desse jogo, 2 bosses). A surpresa é interessante, então prefiro não detalhar, apenas digo que é do histórico da franquia bosses secretos como recompensa por encerrar cada uma dessas histórias paralelas. Joguem todas se possível, vão por mim: em uma delas você consegue um frango de estimação.

Look at my money, b*tches!

Temos mais duas tramas paralelas, no entanto, que acontecem de forma linear: 
são quase como dois jogos standalone, um deles é o Kamurocho Real Estate Royale, um simulador do mercado de ações imobiliárias, onde quem gerencia é o Kiryu - e como prêmio para quem concluir essa sidequest - um estilo de luta especial: Dragon of Dojima, o estilo de definitivo do personagem. O outro, é o Cabaret Club Grand Prix, Majima admistra um tipo de Cabaré diferente do Grand, numa corrida contra os outros do mesmo modelo, para destronar os 5 reis do negócio. O prèmio de concluir essa sidequest - Mad Dog of Shimano, o estilo de luta definitivo de Majima na franquia. Esses estilos são muito overpower depois que você os domina, e praticamente ausentam a necessidade dos outros. Além de serem ultra-estilosos, deixando qualquer luta mais intensa com seus movimentos únicos.


A História

Os protagonistas, Majima e Kiryu.
Antes de tudo: por mais que as cutscenes sejam bem longas (principalmente as dos primeiros capítulos), tenham fé. A história é maravilhosa.

Yakuza 0 é uma prequel desenvolvida em cima do motor gráfico do Yakuza 5, que se passa 17 anos antes da história do primeiro Yakuza; sua história é sobre como dois personagens completamente são envolvidos no meio de uma disputa por um território em Kamurocho, que seria a chave do "Projeto de Revitalização de Kamurocho", o "Lote Vazio" e aquele que adquirisse domínio sobre ele, basicamente controlaria toda Kamurocho. Quanto aos protagonistas, temos dois: Kiryu Kazuma, um jovem gokudô (como Yakuza se chamam) que tenta seguir e respeitar todas as regras da organização qual faz parte, o Clã Tojo e a família Dojima. Kiryu cresceu no Orfanato do Girassol, uma instituição administrada por Shintaro Kazama, o Capitão da Família Dojima e quase um Pai Adotivo de Kiryu, que decidiu entrar na Organização por influência do mesmo. Kiryu havia feito uma "cobrança" de um civil que devia a algum cliente de sua família, e mais tarde esse cliente foi  misteriosamente assassinado, de maneira a fazer a culpa cair nas mãos dele - e o problema nisso tudo - o assassinato ocorreu dentro do Lote Vazio. Foi questão de tempo até serem cobradas explicações por parte dele, principalmente de Daisaku Kuze,  o Patriarca do Clã Kenno, uma subfamília dentro da família Dojima, que estava interessado em utilizar a aquisição do Lote Vazio para tomar a posição de Capitão de Kazama, que estava aprisionado no momento (portanto, incapaz de efetivamente exercer sua função, além de ter de carregar o fardo da ação de Kiryu, tratado como "cria" do mesmo).

Por outro lado, temos Majima Goro, também membro do Clã Tojo, mas da família Shimano. Após alguns desvios de conduta, Majima foi punido por seu Patriarca, sendo torturado (perdendo um de seus olhos no processo) e recebendo a pena de ter que trabalhar no Cabaré  Grand (cabarés no Japão são lugares onde homens pagam para beberem e conversarem com mulheres atraentes, diferente do propósito deles por aqui), vigiado por Tsukasa Sagawa, irmão-jurado (aniki) de Futoshi Shimano e membro da Aliança Omi, uma organização rival análoga ao Clã Tojo, atuando principalmente em Sotenbori. Até pagar sua "dívida", Majima está preso e obrigado a trabalhar no Grand, a sua "prisão particular". Eventualmente, em troca de sua liberdade, ele recebe uma oferta: cometer seu primeiro homicídio. Sagawa diz que se Goro matar Makimura Makoto, estaria livre e seria reabsorvido ao Clã Tojo.

Eventualmente consegue se safar parcialmente de sua punição, mesmo que sendo expulso do Clã e se tornando um civil, porém temendo retaliação por parte dos membros da família Dojima para com a subfamília de Kazama, Kiryu decide buscar respostas e provar sua inocência. Do outro lado, Majima falha no assassinato de Makoto ao descobrir que ela era apenas uma frágil e traumatizada garota, e toma como decisão protegê-la ao saber da verdade por trás da solicitação a ele feita, mesmo que isso significasse desobedecer as ordens de seus superiores.

Conforme a história progride, Kiryu e Majima terão seus destinos entrelaçados e algo em comum nasce: a busca por emancipação - mesmo que por diferentes razões.

Considerações Finais


Yakuza 0 é um jogo incrível, e com certeza um dos melhores jogos que 2017 nos trouxe. Minha experiência jogando e rejogando esse jogo foi sensacional, mesmo 2 anos depois da primeira jogatina, ele me trouxe muitas emoções. Acima de tudo Yakuza 0 é uma adição necessária a franquia, não só pela "revitalização" e por popularizá-la mais no ocidente, como por ser o prólogo desses dois incríveis personagens e mostrando a rota de emancipação deles, para se tornarem o que são hoje em dia, seja o Majima louco e sem se importar explicitamente com o mundo, ou o Kiryu e sua indepêndencia em relação ao mundo exterior, seguindo seus próprios ideais e regras, ao invés de serem controlados por outros. O que na cutscene final é traduzido de forma perfeita, mas não preciso falar sobre aqui, jogue para entender!

Estou muito ansioso para conseguir jogar mais títulos na série (no momento, joguei o Kiwami 1 e Kiwami 2, remakes do 1 e 2 de PS2). E claro que trarei mais posts sobre a série aqui no blog!

Avaliação geral:

Enredo: 10
Personagens: 10*
Jogabilidade: 10
Trilha Sonora: 9
Direção de Arte e Gráficos: 9

E assim Yakuza 0 fica com 9,6   ;)
Obs.: A avaliação dos personagens foi adicionada no dia 13/07, pois quando fui escrever o post do Yakuza Kiwami, notei que me esqueci de avaliar nesse ponto.
Nos vemos no próximo post, muito obrigado por lerem!



Bônus:





segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O meu preconceito com Naruto

Ei, pessoal. Tudo bem?

 Fazem uns meses, mas aqui estou. O post de hoje é um pouco diferente do meu padrão, no entanto, ele carrega uma mensagem bem especial.

Naruto é um mangá shounen da autoria de Masashi Kishimoto, lançado a primeira vez em 1997, no formato de one-shot na revista Akamaru Jump, da Shueisha, e posteriormente passou a ser serializado em 21 de setembro de 1999 na revista Weekly Shounen Jump, da mesma editora, e seguiu assim até ser concluído em 10 de novembro de 2014, totalizando 700 capítulos e que ao fim foram compilados em 72  volumes tankobon. 

Capa japonesa do primeiro volume do mangá.


Naruto tem como base a tríplice de gêneros que podem ser uma fórmula mágica para shounens: Aventura, Fantasia e Comédia.  Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, Bleach, Hunter×Hunter, One Piece e uma série de outros mangás shounen de sucesso bebem/beberam dessa mesma fonte. É claro que por si só, basear-se no que é popular, cliché ou por princípio fadado ao sucesso, não garante nada.

Naruto é de longe um dos mangás de mais sucesso no PLANETA, com numerosas adaptações em diferentes mídias, como séries de jogos, um anime com mais de 500 episódios (que inclusive foi exibido no Brasil, tendo feito um sucesso comparável a Saint Seiya e Dragon Ball em suas respectivas épocas), filmes, brinquedos...

A saga de jogos "Naruto Storm" é conhecida por fielmente adaptar o mangá, além de possuir uma única e satisfatória gameplay de jogo de luta 3D.

Bem, quase todo mundo conhece Naruto, mas apenas por exame de consciência: Naruto é sobre um jovem e órfão ninja da aldeia oculta da folha, que tem como objetivo se tornar um "Hokage" (título atribuido a um ninja muito importante e que age como um "líder" do País do Fogo, a nação da aldeia oculta da folha). Seu caminho para isso, claro, é muito turbulento: Naruto carrega dentro de si, selada, o monstro chamado "Raposa de Nove Caudas", que no passado quase destruiu a aldeia, não fosse o fato do lendário Yondaime Hokage (o quarto Hokage) a selasse, por algum motivo, no ventre do recém-nascido protagonista, e morrendo no processo.

Fanart do lendário Yondaime contra a Kyuubi, a Raposa de Nove Caudas. Fico devendo o autor original, que não encontrei.

Esse fato, leva a todos da Aldeia a odiarem Naruto, o tratando como um monstro. Por isso, Naruto sempre está aprontando peças e bagunças para ser notado por aqueles que o ignoram. Felizmente, graças aos ensinamentos de seu primeiro mestre, o ninja Iruka (e posteriormente, os mestres Kakashi e Jiraiya), ele começa a trilhar o caminho ninja, e amadurece ao longo da série, se tornando cada vez mais carismático, fazendo muitos amigos e mudando o coração daqueles tomados pelo ódio. Um belo e simples roteiro de shounen, que com boas rédeas, obviamente faria sucesso.

Naruto e Iruka-sensei, que basicamente foi a figura paterna do mesmo.


Só que...apesar de ter feito essa rápida sinopse, eu NÃO vim fazer uma análise de Naruto (talvez faça um dia?!), e sim contar minha experiência com esse mangá.

Durante a minha infância, eu gostava de ver animes que eram mais antigos, pois os alugava na locadora  (quem diria) próxima de casa. E claro, assistia alguns da TV. A questão é que por isso, eu gostava muito de Saint Seiya (CDZ), enquanto meus colegas prefiriam Naruto ou Dragon Ball Z, e com o passar do tempo, me foi crescendo um desgosto por Naruto. Na época que passei a frequentar grupos e fóruns de anime, adorava criticar Naruto, sem ter visto mais de dez episódios, era quase um hate sem motivo mesmo, baseado no pouco que sabia e ouvia sobre a série. E isso foi piorando quando entrei em um momento mais "underground" da minha vida, onde só queria ler obras desconhecidas e para um público-alvo diferente da minha idade. O que mais uma vez, me isolou de alguma maneira de meus colegas no quesito gostos pessoais. Não me arrependo, porque isso me deu um olhar mais crítico para o conteúdo de entretenimento que consumo. Bem, essa fase se estendeu até meados de 2016, quando passei a querer olhar alguns "clássicos" para ver o motivo de serem tão populares.

O time 7, da esquerda para a direita: Sasuke, Sakura e Naruto. Acima deles, Kakashi-sensei, o professor do trio que inevitavelmente marcou a geração dos otakus que viveram as duas últimas décadas.


Foi aí que, em 2017, li Slam Dunk, e simplesmente me apaixonei pelo mangá. Querendo que um dos meus amigos também lêsse a obra, fiz um trato com ele: "Eu leio Naruto, e você lê Slam Dunk e Crows, justo já que Naruto é maior que os dois juntos". Li exatos 20 capitulos de Naruto. Acho que meu app de mangás deu problema e só fui retomar a leitura no fim de 2018, em que li até o capítulo 170, e já estava adorando aquilo. Era simples, contudo sensacional ao mesmo tempo. E o fato de não ter tido a obra como uma das que compôs minha infância, dava um ar de novidade e ansiedade para ler mais e mais. Fiquei de férias, meu celular quebrou. Arranjei outro, demorei para baixar um app de mangás, e quando baixei, decidi focar em reler Stardust Crusaders, a terceira parte de JoJo e Bakuman, dos mesmos autores de Death Note. Acho que foi em setembro ou outubro deste ano (2019!) que retomei a leitura de onde parei. E dessa vez... foi explosivo. Apesar de basicamente só ler pelo telefone quando estou no transporte (ônibus, metrô, carro), esperando algo ou nos intervalos de uma aula para a outra, EU NÃO CONSEGUIA PARAR DE LER NARUTO. Tinham dias que lia apenas 10 ou 20 capítulos (cerca de 2 volumes) como haviam dias em que eu lia 5 ou 6 volumes de uma vez, coisa que não faço faziam uns 2 anos. Naruto reacendeu meu pique para ler mangás continuamente.

Quatro gerações de equipes. Essas equipes são quase como uma segunda família no contexto de Naruto.


Bem, foi questão de um mês para eu acabar Naruto. Fazem algumas semanas, inclusive, que fechei os 72 volumes/700 capítulos da saga. Mesmo na parte em que todos me disseram que a qualidade do mangá cairia muito, ainda fiquei muito fascinado para ler, graças ao roteiro sempre introduzindo alguns elementos conceituais que me deixavam absurdamente curioso. Seja um personagem revelando um segredo, uma reviravolta, uma habilidade nova que eu queria ver como seria derrotada.

E a questão é: Por que Naruto me deixou assim?

Surpreendente, Naruto não é uma obra que como muitos pensam, tem o "poder do protagonismo". Pelo contrário, toda habilidade nova do Naruto (e qualquer outro personagem) tem alguma explicação, toda batalha tem uma justificativa para desenvolver-se da maneira que se desenvolveu. Não nego um roteirismo, o Kishimoto planta uma semente em algum lugar do mangá, as vezes volumes e volumes antes, e colhe os frutos dela na hora que decide. Basicamente, sempre haviam "cartas na mangá" para serem utilizadas quando necessário. Ao menos, a explicação é sempre satisfatória, e costuma acrescentar no universo do mangá, não dando ao leitor a sensação de expectativa quebrada. Não nego que algumas vezes o autor queis correr para solucionar um evento ou outro do mangá, o que acabava dando a sensação de que ele já não tava afim de escrever mais sobre aquela luta ou cena. Bem, acontece.

Naruto meditando com um de seus clones da sombras (originados do famoso kage bunshin no jutsu).


No geral, o mangá apresenta uma quantidade tão grande de pontos positivos, que seus defeitos quase que caem por água abaixo. São muitos personagens interessantíssimos, e que apesar de as vezes não terem um tempo de tela satisfatório (isso ao menos no mangá), ainda conseguem deixar a sua marca, uma ambientação bem criativa e que concilia com elementos reais da histórias de ninja, e uma lore bem construída. O final de Naruto pode não ter sido bem executado, mas ninguém lê uma obra pelo final, e sim pelo que ela constrói. Mesmo um final terrível, não anula a qualidade do que tinha sido feito antes. E como eu disse, o fim é mal executado (e corrido), só que ainda assim, a ideia fecha bem o mangá. E o dualismo Naruto-Sasuke teve uma conclusão bastante satisfatória se você realmente se atentou a relação dos dois durante toda a história, do início ao fim.

Naruto e Sasuke se enfrentam ao lado do mangá quatro vezes, duas enquanto mais jovens (Naruto "Clássico") e duas enquanto mais velhos (na fase "Shippuden"), sem contar o primeiro duelo deles, quando estavam na "creche" ninja.

Um ponto que muitos criticam e gostaria de abordar, o tal do "talk no jutsu". A questão é que constantemente em Naruto temos um conflito de ideias. Todos os antagonistas principais (Orocmhimaru, Pain e Madara) possuem intenções boas, com o problema de terem buscado uma maneira de execução delas conflituosa bem nos moldes de "os fins justificam os meios". E não são só esses três, existem outros personagens que pensam assim, contudo, com planos e ideias diferentes. O Naruto e sua tropa, por outro lado, acreditam mais na ideia de que através dos laços e de uma boa conversa, todo mundo se entende. A história dessa obra talvez, ou melhor pode ser sintetizada como um conflito de ideias. A própria aldeia oculta da folha nasceu do duelo entre opostos, existem profecias envolvendo os opostos também. O 'talk no jutsu' nada mais é do que os discursos que mostram essas ideias, onde um personagem tenta convencer o outro na lábia, e quando se fala de alguém tão compulsivo por alcançar um objetivo que acaba o fazendo de maneira a contrariar sua própria moral e seus próprios conceitos internos, por que uma boa conversa não faria esse indivíduo repensar e sair desse caminho que não condiz mais com o que ele realmente acredita e defende? Ainda assim, as lutas que foram decididas com esse método, foram longas e mudaram a maneira de pensar de ambos combatentes, e não foram muitas assim. Na verdade o que mais acontecia era o personagem x reconhecer que o y era igual a ele, porém que aquele conflito era inevitável por algum motivo (ex.: serem de países diferentes em guerra e não terem autonomia para interromper aquilo). Se você pensa bem nos desejos de certos "vilões", percebe que eles não são maus, e acaba  simpatizando com eles.

Pain definitivamente é um dos personagens que mais dialogam com o que falei. Não a toa, o seu arco que é lotado de discursos ideológicos, é considerado por muitos como o ápice da história.

No geral, Naruto trabalha muito bem em cima dos conceitos desenvolvidos por Masashi Kishimoto e seu (s) editor (es) e assistentes. Não é simplesmente sorte que fez a obra conquistar tantas pessoas, foi mérito mesmo. E é justamente por isso, que Naruto está (se já não se pode afirmar que é) se tornando atemporal.

A conclusão disso tudo é: se eu tivesse permanecido com o meu preconceito de antes, teria deixado de ter essa grande jornada. Muitas vezes, se não em quase todas, abandonar certos preconceitos e abrir a mente para novas ideias, pode te surpreender.

Neji deixou um conceito pré-estabelecido em sua mente tomar o rumo de sua vida, até Naruto provar que ele deveria abrir mais sua mente e deixar de levar como verdade algo que não fazia sentido.

Bem, espero que tenham gostado dessa publicação. É algo diferente, basicamente eu queria falar um pouco sobre a experiência que tive lendo Naruto e desmistificando o que pensava/ouvia do mangá, e não analisá-lo como usualmente faço no blog. As análises não acabaram, na verdade, é o meu formato clássico. A questão é que realmente senti vontade de compartilhar a minha experiência nova de uma maneira nova. É a primeira vez que pego esse formato de "contar uma história pessoal" e ao mesmo tempo falar sobre um dado objeto (no caso, o mangá Naruto), então acredito ter pecado em muitos pontos, mas como disse, é a primeira vez que tento algo assim.

Por fim, fiquem bem e um abraço.
Até a próxima!

domingo, 2 de junho de 2019

QP: Alma Violenta - Amadurecimento e as Escolhas da Vida Adulto

Hey, como vocês tem ido?

Espero que bem. 

Dei uma sumida do blog, algo razoavelmente frequente, mas estou tentando mudar esse hábito, me organizando melhor. Tenho pesquisado muito coisa para o blog, então aguardem uma enxurrada de novos posts!

Hoje vim falar sobre um mangá que recentemente reli, e está ligado ao universo de Crows (já fiz um post sobre, clique em cima do nome do mangá para conferi-lo, recomendo dar uma lida no post de Crows antes desse!).

Se você conhece Crows, ou ao menos leu o meu post sobre, imagino que já tenho uma noção de como as coisas funcionam em mangás de delinquentes. QP, sendo do mesmo autor de Crows, nos faz esperar uma experiência da mesma maneira. Digo que quem tiver essa visão está errado, porque são obras que apesar de pertencerem ao mesmo nicho, abordam coisas bem diferentes. Resumidamente, Crows é uma obra que atinge melhor jovens que estão no fim da juventude, caminhando para a vida adulta. Os personagens em sua maioria estão em desenvolvimento. Em QP, os principais já são adultos e desenvolvidos, diria eu totalmente maduros. E a história não é contada de maneira totalmente linear, pois eventos do presente acontecem ao  mesmo tempo que eventos do passado estão sendo narrados.

QP e seus 'kyoudai' dos tempos de escola!


A história de QP gira em torno do próprio protagonista Kotori Ishida, apelidado de "QP". Kotori é um personagem bem icônico, pois diferente de protagonistas que estamos acostumados, que sempre buscam cada vez mais serem fortes, o cara simplesmente é imbatível! Desde criança, nunca conheceu o gosto da derrota. Ele é uma lenda viva, podemos dizer. Porém...a história na verdade não começa nos feitos dele, e sim em um posto de gasolina, com QP já formado no colegial, agora um adulto.

No seu primeiro dia de trabalho, seus colegas estavam apreensivos, ao saberem de quem se tratava, mas foram surpreendidos pelas ações de um homem gentil, de bom coração, totalmente sem coesão com o que ouviam falar. Acontece que Kotori passou três anos no reformatório, após ter de carregar nos ombros um grande esquema envolvendo uma guerra entre uma grande facção que estava sendo organizado por várias primeiranistas, que pretendiam colocar em submissão quaisquer uns que se oporem a eles. E quem organizou tudo isso, foi um grande amigo de QP, Azuma Ryou.

Agora, um homem reformado e renascido após três anos recluso, QP quer suas perguntas respondidas, e mais importante: achar Ryou, que desaparecera após seu último encontro, mergulhando em um mundo obscuro.


Para ser  mais claro, no tempo presente, cerca de 80% dos eventos importantes já ocorreram, mas para o leitor entender a história, QP a narra por meio de flashbacks, para seus colegas do posto, tentando entender alguns mistérios que o rondam. O interessante desse artifício, é que Takahashi-sensei conseguiu estabelecer uma ligação com o leitor, onde este se sente como um dos ouvintes da histórias do Kotori!

Bem, prosseguindo, vamos aos poucos vendo desde eventos da infância do QP, como a maneira que conheceu seus primeiros amigos, alguns embates importantes, e aí enxergamos aos poucos um personagem sendo solidificado! Não só um, como alguns outros que são importantes na história, na verdade, QP: Soul of Violence é um mangá com poucos personagens, em contraste com  outros do mesmo autor. Ainda assim, são trabalhados individualmente, com o maior cuidado, ficando quase vivos.

Com o tempo, vamos entendendo o porquê de QP ter começado a deixar de  lado uma vida briguenta sem razões ou motivos para lutar, e começar a buscar o significado de ser um verdadeiro homem, inspirado por um amigo em especial. Sendo prático, o que exatamente levou QP a ser o QP que conhecemos no início do mangá?

O que você faz tem sentido? Suas ações estão sendo tomadas com algum propósito lógico?
Obviamente, o mangá é recheado de momentos engraçados!
Agora, passarei a discutir alguns pontos que são bem importantes, porém são melhor compreendidos por aqueles que leram o mangá, portanto, contendo spoilers. Se não lhe for um problema, pode prosseguir! Do contrário, desça ao fim do post, onde está escrito "FIM DOS SPOILERS".



A grande questão em QP, ao meu ver, não é julgar o caminho que você está tomando. Os personagens já tomaram seus caminhos, você (leitor) apenas tenta entender o motivo de cada escolha. Nenhuma é necessariamente errada, contanto que assuma o que aquilo lhe significará.

Com o desenvolver  dos flashbacks, é mostrado como QP conhece Ueda Hidetora, inicialmente um rival e mais tarde um grande amigo.


Hidetora começou em um embate marcante com QP, e mais tarde, como algo além.








Esse embate é uma das minhas cenas favoritas nos mangás em geral. Pela primeira vez, QP perdeu. Ele conseguiu se 'sobressair', pois como disse, seu preparo físico quem lhe concedeu a vitória. Em termos de determinação, Hidetora-san, o desafiante, venceu. Foi nesse momento, que o grande QP se sentiu derrotado e começou a refletir. Aos poucos, vendo que vida vazia vinha seguindo, decidiu optar por olhar as coisas de uma nova forma. Amadurecer. E como inspiração, tomou o homem que o 'derrotou'.

Amizade é um conceito importante aqui.

O novo Kotori decidiu começar a viver mais tranquilamente, e lutar apenas com sentido, passando até mesmo a evitar embates sem  sentido, por mais que a vontade de derrubar qualquer um que o irritasse fosse imensa.

Por outro lado, esse não era o pensamento de seu amigo, Ryou.

E então, um ponto fundamental do mangá vai se desenvolvendo. Um confronto de ideais, Kotori Ishida, buscando ser um  cara mais 'correto', e Ryou Azuma, não se importando com os meios necessários para triunfar.

E não a maneira melhor de explicar isso do que com um pensamento do próprio Hidetora-san: "Existem dois tipo de homens fortes, aqueles que se tornam fortes fazendo muitos amigos, e os que se tornam fortes usando outros como degraus, e criando então, inimigos". Que tipo de homem ser?

Claramente o primeiro é o desejo de QP, e o segundo, foi o caminho tomado por Ryou. O mangá não tenta passar uma ideia de qual seria correto, em momento algum. São escolhas individuais, e isso que acho sensacional em QP.

Quando os dois se veem, pela última vez antes do QP ser 'preso', vemos que não existe conciliação entre esses dois pontos.


A vida é imprevisível, não sabemos o que pode nos ocorrer.


Com essa parte da história sendo contada, retomado é o tempo presente e a busca final pela última resposta ocorre.

Quando os dois estão finalmente cara a cara, é que vemos a dura realidade.








A mente de um homem adulto não pode ser mudada, ele já está com pensamentos enraizados em sua mente, em seu corpo. São como cicatrizes que não podem ser removidas.

Ryou, obviamente não cede, porém deixa claro que não quer envolver seus antigos companheiros em seu meio, e simplesmente desaparece. Não existe mary sue aqui. Ninguém salvou o dia, e ao fim, temos os dois grandes amigos ainda separados. No entanto, uma coisa ficou clara, o laço formado entre os dois continuou vivo. E por mais que possa soar meio piegas, não estarem mais 'juntos', foi o melhor a ser decidido.

Diferente de uma cena específica de Crows, onde um personagem se arrepende e decide mudar sua trajetória, aqui não será assim. As decisões já foram tomadas, como várias vezes deixei claro.

O que é bastante deprimente, mas a dura realidade. Infelizmente, não tem como certas coisas durarem para sempre, e acabam somente como memórias. Boas, bastante nostálgicas, mas dolorosas memórias.

No entanto, a vida se segue!

FIM DOS SPOILERS!

Ryou é muito parecido com Akira Nishikiyama da franquia de jogos Yakuza/Ryu Ga Gotoku, na minha opinião. Talvez eu aborde isso em um futuro post.

Na imagem: "Ryou, tenho certeza de que se conhecesse esses caras, iria olhá-los com desprezo, como se fossem fracos, porcaria inútil. Mas estaria totalmente errado. Eles passam por apertos, lutam suas próprias lutas para obter suas felicidades...e quando finalmente o conseguem, florescem como uma grande flor. Não acha que são bem mais fortes e legais que nós? Gostaria de ser mais como eles, contigo. Entende, Ryou..."


É muito interessante a interação de QP com seus colegas de trabalho. Para um cara que sempre fez amizades com base na força, nas lutas (físicas), essa novidade de amizades mais puxadas para conversas e o compartilhamento de emoções diferentes daquelas obtidas em lutas, é fantástico.



Em conclusão, QP: Soul of Violence é um mangá muito bem escrito, com personagens profundos, uma temática diferente, que ao mesmo tempo que tem a essência do "Crowsverse", tem sua  própria essência, bem mais madura. Creio que ainda terei de reler essa obra no futuro para compreendê-la ainda mais.

QP tem 8 volumes, com mais dois gaidens (um que aconselho ser lido imediatamente após a leitura do mangá principal; o outro não li pois não achei traduzido para o inglês, e não tenho japonês bom o suficiente para lê-lo). Além de haver uma série de 12 episódios, que contudo não achei legendada em nenhum idioma, então em algum momento tentarei adquiri-la para fazer uma pequena review.

Bem, encerrarei por aqui. Desculpem-me se a consistência do post não ficou tão boa, faz um tempo que não consigo escrever, e então os rascunhos que faço na minha mente ficam distorcidos. Espero que em breve traga mais um post, porque de ideias estou lotado!

Um grande abraço!




domingo, 16 de dezembro de 2018

CROWS - Delinquência Juvenil e Fraternidade

Olá, queridos leitores! Tudo bem com vocês?

Hoje venho falar de um dos mangás que faz mais que desejo falar sobre...Crows!

Crows é um mangá de Hiroshi Takashi, publicado entre 1990 e 1998 na revista Shounen Champion, da editora Akita Shoten. Possuindo uma adaptação para OVA (de dois episódios), uma sequência (Worst, com 33 volumes), uma quantidade imensa de gaidens, spin-offs e histórias laterais, mangás relacionados (Drop de Hiroshi Shinagawa com Dai Suzuki e colaboração de Hiroshi Takahashi e QP, do próprio Takahashi-sensei). Sem contar a trilogia de live-actions, jogos... É um universo gigantesco! Comparável ao de obras como Saint Seiya ou Jojo's. Só faltando uma adaptação serializada para anime...oremos! 

Li o mangá no início do ano passado, sendo uma recomendação do Matheus do Blog Overdrive. Admito que inicialmente não criei expectativa alguma sobre ele, e só li por ser recomendação de um cara que admiro. E assim sendo, ruim não poderia ser. Comecei a ler no mesmo dia, e de uma vez devorei uns dois ou três volumes, em uma época que dificilmente me esforçaria lendo mangás sem serem físicos (a única vez que havia feito isso antes, foi em 2015 com JoJo, para se ter noção, e mesmo assim resisti por uns meses antes de o fazer).

Enfim, devem estar se perguntando o que há de tão interessante em Crows para ter se expandido de numerosas maneiras. Bem, é sobre isso que abordarei hoje...ou tentarei haha.

"O que há de errado com corvos?! Comparado a um pobre pássaro preso em uma gaiola e que desaprendeu a voar, isso é muito melhor. Estou bem em ser um corvo!" - HARUMICHI, Bouya.


Crows trata sobre a escola de Suzuran e suas escolas rivais na cidade, todas formadas por um número enorme de estudantes delinquentes que só pensam em brigas e confusão. Pode parecer genérico ou ultrapassado, mas na verdade não o é. Esse mangá envelheceu muito bem, e para quem larga o preconceito pelo simples, surpreender-se-á com o profundo.

Enfim, o protagonista é Bouya Harumichi, um segundanista meio japonês e meio americano (esse lado bem destacado pelo seus cabelos loiros), transferido de outra escola e que só sabe pensar em quatro coisas: brigar, dormir, comer e mulheres. 
A princípio, essa descrição pode transparecer novamente que se trata de uma obra genérica com um protagonista genérico, no entanto, não se prenda a isso. Poderia dedicar um post só para falar do que Bouya significa, mas ainda assim sinto que seria pouco, não é a toa que mesmo depois de 26 volumes, ele ainda aparece em diversas citações de vários mangás do universo CROWS-WORST, tendo até sua história lateral própria. 

Continuando, Bouya entra na escola de Suzuran, um colégio de delinquentes com vários conflitos internos, onde ninguém conseguiu liderá-lo. Nunca houve uma única pessoa que conseguiu reunir todas as cabeças de lá com um único objetivo.
E então, seria Harumichi capaz de fazer isso? Será ele o grande destinado, o cumpridor da profecia?? 
Não. Capaz? Com certeza, porém esse cara só quer saber é de brigas. E tudo bem, pois ele é bom nisso, e é com sua força que demonstra o seu carisma. Não existe ninguém que não goste dele depois de uma briga.

Harumichi já chega em Suzuran caçando embates com qualquer um que seja dito como forte, e sempre surpreendendo.
Cão que só sabe latir? Que nada, Bouya mostra que ele late e morde com a mesma intensidade!

Existem vários momentos que Crows ensina leituras valiosas para seus leitores, contendo um leque de personagens imenso e incrível. Acho incrível como TODOS os personagens recebem a devida atenção, sendo sempre bem trabalhados e com uma construção ótimo. Todo personagem aparece com uma razão, e aqueles que tiverem a mínima recorrência ganham alguma profundidade (mesmo que não seja algo muito claro, e até simples - pois o simples também pode ser denso).

Mas ser forte não é tudo, até mesmo delinquentes são humanos. Eles possuem desejos, sonhos, sentimentos. Amam, se entristecem, se alegram e fazem amigos. Crows é um mangá que retrata muito bem esse lado.
Normalmente vemos esses jovens como marginais e lixo. Ao menos admito que era essa a minha visão, mas ser punk não é sinônimo de ser ruim. E sinceramente, até a pior das escórias pode ensinar algo. Não é a toa que em muitas obras um vilão acaba sendo mais carismático que o herói, certo? Haha


Como - vulgarmente falando - porrada comendo solta pode ser algo prazeroso de se ver?
Crows demonstra um lado do homem deixado de lado nas sociedades atuais, porém que faz parte da essência dele.
No mundo atual, rege a sua força psicológica e o intelecto. Mas sabemos que nem sempre a conversa verbal resolve as coisas, e tomar medidas drásticas é o que muda a situação. Está na natureza do homem lutar. Não é por besteira que artes marciais possuem uma filosofia tão complexa e extensa. 

No Universo de Crows, (quase) tudo é resolvido com uma boa briga (claro que sempre existem aqueles mais inteligentes, espertos e/ou carismáticos, que são os que conseguem resolver problemas maiores, porém sempre preparados para o pior).
Brigar, não é só a violência em si, como um ato de maldade. É uma forma de diálogo corporal, qual o mangá sabe exercutar muito bem. 



Pode não ser muito claro, porém nessa cena Bouya e Bandou estão tendo um diálogo, sem dizer praticamente nada. Tentam entender o adversário e aprender sobre ele, vendo a forma que luta.
Não enxergava esse tipo de coisa quando comecei a ler, porém o mangá já cria situações com um ambiente chamativo desde o início (o abuso do humor é sensacional. Crows é um dos poucos mangás que conheço com a capacidade de unir comédia e ação nas medidas certas sem falhar). 

O vencedor, mesmo vitorioso, não mantém o mesmo pensamento. Ele aprendeu coisas vendo o perdedor. A relação inversa é igualmente válida, aquele que perde aprende muito com o que vence.





Acho que essa cenas traduzem para o visual (algo muito importante em CROWS!!) o que tento dizer. 
E tudo isso, só no primeiro arco do mangá, duração de 5 capítulos (termina no início do segundo volume).  

Os personagens da obra são todos muito únicos, e esse é um fator que dá vida ao todo, criando relaçãoes incríveis entre eles, e reforçando o conceito de fraternidade e rivalidade lá trabalhados.
Crows é um mangá com uma essência própria, que cativa o leitor atencioso e aberto e traz uma experiência muito especial, deixando um gostinho de "quero mais" ao seu fim (o que é dado, levando em conta a quantidade enorme de obras no universo Hiroshi Takahashi). Sabe, não foi  a toa que minha releitura de CROWS teve mais impacto que a primeira leitura, é uma obra sempre pronta para te surpreender, é difícil não e emocionar com uma leitura atenciosa, acreditem!

Crows tem um valor inestimável para mim, me mostrou como sempre existe um caminho para se optar, como sempre devemos persistir e nos esforçar para alcançar nossos objetivos. E acima de tudo, aprendi muito sobre o que é ser um bom amigo.
Aparentemente essas questões são obsoletas por serem tratadas em muitos mangás de demografia shounen, porém Crows as carrega em um cenário realista e único, trazendo uma maior proximidade entre elas e o leitor, mesmo que não seja o que é trabalhado diretamente aqui.



Bem, encerro este post por aqui (que era para ter saído bem antes, porém não estava seguro de fazê-lo ainda).


Espero que tenham gostado e que leiam a obra assim que puderem, por mais que seja um nicho que não agrada a todos, apenas tentando pode-se descobrir, e garanto que aqueles que se interessarem, gostaram!






Um abraço para vocês, e aguardem que logo logo estarei de volta!

Fiquem com um música dos Beats, que basicamente se consolidaram como a parte da trilha sonora dos Corvos!



domingo, 2 de setembro de 2018

Onani Master Kurosawa - Redenção e Preconceito

Olá, pessoas. Como vão?
Eu particularmente, mal. Adoeci e ando bem indisposto, sequer consigo falar. Li um mangá recentemente, e me senti na necessidade de falar sobre ele, então este é um post qual estou depositando as energias vitais que me restam...
Brincadeiras à parte, vamos ao que interessa!


Hoje venho falar sobre um mangá sensacional. Onani Master Kurosawa é um doujin (mangá independente, publicado sem o apoio de uma editora ou algo do tipo). E surpreende muito por sua qualidade, tanto em enredo como na arte, ainda mais levando em conta ser uma publicação indepente. No entanto, isso não é o que mais nos surpreende. 

Lançado em 2007, com arte de Yokota Takuma e enredo por Katsura Ise, sua história é sobre algo bastante polêmico. O título, significa literalmente: "Kurosawa, o mestre da masturbação". Espantável, muitas pessoas podem ter deixado de lê-lo só por esse título, e erraram feio quanto a esse preconceito


Vamos a temática. Onani Master Kurosawa conta sobre a bizarra rotina diária de seu protagonista, Kakeru Kurosawa. Todos os dias após as aulas, passsa uma hora na biblioteca, até que o primeiro prédio de sua escola esteja vazio, para que ele possa entrar no banheiro feminino e se masturbar pensando em alguma garota que viu. É, exatamente isso. Espantável, não é mesmo? Como um mangá desses pode ser bom? O autor do blog enlouqueceu? O autor dessa obra é doente?

Entendo o que sentem, mas esse mangá...vai muito além do que parece oferecer.
A trama do mangá começa de algo absurdo, porém se desenvolve de uma forma única.
O que se tratava apenas de uma rotina diária esquisita de um jovem apático e antissocial, passa a se tornar um plano de vingança pessoal em conjunto, quando uma colega de classe de Kurosawa - Aya Kitahara - descobre o que ele faz escondido.

Juntos, começam a construir uma pervertida e nojenta retaliação psicológica contra pessoas que praticavam ações ruins (bullying) para com Kitahara. 
É quase uma espécie de Death Note da Punheta [...].



A medida que a história discorre, vemos um protagonista cada vez mais maduro e reflexivo quanto a seus atos, até que chega um momento onde precisa tomar decisões de extrema coragem, e enfrentar o peso de todas as suas ações até então, independente de quão extremas sejam as decorrências resultantes de suas ações.

Onani Master é um mangá que quebra o nosso preconceito por sinopses e temas paradoxais.

Falarei sobre o mangá como um todo, então a partir de agora, alguns spoilers. Apenas pule até onde diz "fim dos spoilers", caso ainda não tenha lido a obra. Não aconselho ler essa parte se ainda não houver terminado o mangá. Não são spoilers pesados, mas não leves. Eventos importantes do mangá são revelados, portanto, leia por conta e risco.



SPOILERS ABAIXO

Se tem algo que me surpreendeu muito nesse mangá, é o quanto o protagonista se desenvolve, sem perder a própria essência. A seriedade e calculismo permanecem, porém há o desenvolvimento de uma personalidade cada vez mais empática. Kurosawa era um personagem com ego inflado e complexo de superioridade. Contudo, começa a compreender melhor o que é um "grupo", entender as pessoas e a necessidade de estar com elas. Não deixa a frieza natural de lado, ainda assim, se torna capaz de sentir os outros.
E justamente com essa capacidade de empatia adquirida, que se viu capaz de assumir os seus "pecados" diante todos os colegas de classe. Sem medo, sem travas. Pronto para aceitar o que o destino lhe reservar-se, reconhecendo o próprio erro, já em aguardo por punição.
Sabemos que a maioria das pessoas não é capaz de assumir os próprios erros, e sim ocultá-los até o momento que já não é mais possível. Nosso protagonista da vez, não o fez.

E é nisso que o mangá pega o leitor de surpresa. Se eu soubesse dos eventos do fim do mangá e só depois lesse seu início, acharia se tratar de algo diferente, ou que a linha de eventos é bem ilógica e mal construída. Mas, não!

Acima de tudo, o Onani Master engole o arrependimento, que desce agarrado na garganta, porém domina a redenção. Tornando seus erros, mais tarde, em acertos. E então, vagarosamente recebendo o perdão.



FIM DOS SPOILERS




A história é consistente, e a arte é bem trabalhada. Temos uma trama precisa, com um excelente desenvolvimento de personagens.

Indo as notas:

Ambientação: 8,0
Arte Visual: 8,0
Conceitos: 7,0
Construção de Personagens: 10,0
Personagens: 8,0

Nota Geral: 8,2

Talvez pareça uma nota baixa se levarmos em conta a forma que descrevi a obra, porém não posso ignorar o fato de que mesmo sendo uma obra independente, seria injusto tratá-la com tanto esmero simplesmente por isso. Não, prefiro ver como algo do mesmo nível das leituras que costumo ter, o que no fim, acaba até atribuindo um valor bem mais considerável que o que de fato aparece. Melhor dizendo, a nota se torna mais valorosa do que os números descrevem.

Enfim, algo que venho aprendendo faz alguns anos - largar o preconceito. Muitas vezes atribuímos o preconceito a causas sexuais ou étnicas, porém não é deste tipo que falo, e sim daquele de ver a aparência externa ou popular de um certo trabalho, e não o consumir por isso. Tentar construir o meu pensamento durante o consumo, a apreciação do conteúdo com os meus olhos é o que tenho levado em conta, não mais ser levado ao que aparenta. Se ainda tivesse o pensamento de antes, acabaria por não ler este mangá, que é ótimo.

Bem pessoal, paro por aqui.
Antes que eu me esqueça, Onani Master Kurosawa foi publicado com 4 volumes de  31 capítulos + 1 extra e uma continuação em novel com dois curtos capítulos (contando sobre um evento especial dois anos após a história da obra original).


Despeço-me, um ótimo domingo e semana para vocês! o/